III
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Português
III
(Traduzido do bengali)
(Do Diário de um Discípulo)
(O discípulo é Sharatchandra Chakravarty, que publicou seus registros em um livro bengali, Swami-Shishya-Samvâda, em duas partes. A presente série de "Conversas e Diálogos" é uma tradução revisada desse livro. Cinco diálogos desta série já apareceram nas Obras Completas, Volume 5.)
[Local: Cossipore, no jardim do falecido Gopal Lal Seal. Ano: 1897.]
Após seu primeiro retorno do Ocidente, Swamiji residiu por alguns dias no jardim do falecido Gopal Lal Seal, em Cossipore. Alguns Pandits bem conhecidos, residentes em Barabazar, Calcutá, vieram um dia ao jardim com o propósito de travar uma disputa com ele. O discípulo estava presente nessa ocasião.
Todos os Pandits que ali vieram sabiam falar sânscrito fluentemente. Vieram e, saudando Swamiji, que estava sentado cercado por um círculo de visitantes, começaram sua conversa em sânscrito. Swamiji também lhes respondeu em melodioso sânscrito. O discípulo não consegue agora lembrar-se do assunto sobre o qual os Pandits discutiram com ele naquele dia. Mas disto ele se lembra: que os Pandits, quase todos em uma só voz estridente, disparavam contra Swamiji, em sânscrito, sutis questões de filosofia, e ele, num estado de espírito digno e sério, ia-lhes apresentando com calma suas próprias conclusões, bem fundamentadas, acerca daquelas questões.
Na discussão com os Pandits, Swamiji representava o lado do Siddhânta, ou das conclusões a serem estabelecidas, enquanto os Pandits representavam o do Purvapaksha, ou das objeções a serem levantadas. O discípulo se lembra de que, ao argumentar, Swamiji empregou erradamente, em certo ponto, a palavra Asti em vez de Svasti, o que fez os Pandits caírem na gargalhada. Diante disso, Swamiji imediatamente submeteu-se: "पण्डितानां दासोऽहं क्षन्तव्यमेतत् स्खलनम्—Não sou senão um servo dos Pandits; perdoem este erro." Os Pandits também ficaram encantados com essa humildade de Swamiji. Após uma longa disputa, os Pandits enfim admitiram que as conclusões do lado do Siddhanta eram adequadas e, preparando-se para partir, fizeram suas saudações a Swamiji.
Depois que os Pandits se foram, o discípulo soube por Swamiji que esses Pandits, que haviam tomado o lado do Purvapaksha, eram bem versados nos Shâstras da Purva-Mimâmsâ; Swamiji defendeu a filosofia da Uttara-Mimâmsâ, ou Vedanta, e provou-lhes a superioridade do caminho do conhecimento, e eles se viram obrigados a aceitar suas conclusões.
Sobre o modo como os Pandits riram de Swamiji ao apanhar um erro gramatical, ele disse que esse equívoco se devia ao fato de ele não ter falado em sânscrito durante muitos anos seguidos. Ele não censurou os Pandits nem um pouco por tudo aquilo. Mas observou, a esse respeito, que, no Ocidente, implicaria grande descortesia, da parte de um adversário, apontar qualquer deslize de linguagem desse tipo, desviando-se da verdadeira questão em disputa. Uma sociedade civilizada, em tais casos, aceitaria a ideia, sem dar atenção à linguagem. "Mas, no seu país, toda a briga se faz em torno da casca; ninguém procura o grão dentro dela." Dizendo isso, Swamiji começou a conversar com o discípulo em sânscrito. O discípulo também dava respostas num sânscrito truncado. Ainda assim, Swamiji o elogiava para encorajá-lo. A partir daquele dia, a pedido de Swamiji, o discípulo passou a conversar com ele em sânscrito de quando em quando.
Em resposta à pergunta sobre o que é a civilização, Swamiji disse naquele dia: "Quanto mais avançada uma sociedade ou nação está na espiritualidade, mais civilizada é essa sociedade ou nação. Não se pode dizer que uma nação se tornou civilizada apenas porque conseguiu aumentar os confortos da vida material trazendo ao uso muitas máquinas e coisas desse tipo. A civilização atual do Ocidente está multiplicando, dia após dia, apenas as carências e as aflições dos homens. Por outro lado, a antiga civilização indiana, ao mostrar ao povo o caminho do progresso espiritual, conseguiu, sem dúvida, se não eliminar de uma vez por todas, ao menos diminuir, em grande medida, as necessidades materiais dos homens. Na presente era, foi para pôr em coalizão essas duas civilizações que Bhagavan Shri Ramakrishna nasceu. Nesta era, assim como, de um lado, as pessoas precisam ser intensamente práticas, também, de outro lado, precisam adquirir profundo conhecimento espiritual." Swamiji nos fez compreender com clareza, naquele dia, que de tal interação da civilização indiana com a do Ocidente despontaria para o mundo uma nova era. No decorrer da exposição sobre isso, ele veio a observar, em certo ponto: "Bem, outra coisa. Lá no Ocidente, as pessoas pensam que, quanto mais um homem é religioso, mais recatado ele deve ser em seu porte exterior — nenhuma palavra sobre qualquer outra coisa em seus lábios! Assim como os sacerdotes do Ocidente, de um lado, ficavam tomados de espanto com os meus liberais discursos religiosos, de outro lado ficavam igualmente perplexos ao me encontrarem, depois de tais discursos, conversando frivolidades com meus amigos. Às vezes me diziam na cara: 'Swami, você é um sacerdote, não deveria ficar brincando e rindo desse jeito, como os homens comuns. Tal leviandade não fica bem em você.' Ao que eu respondia: 'Somos filhos da bem-aventurança, por que deveríamos parecer carrancudos e sombrios?' Mas duvido que conseguissem captar corretamente o sentido das minhas palavras."
Naquele dia, Swamiji falou muitas coisas também sobre o Bhâva Samâdhi e o Nirvikalpa Samadhi. Elas são reproduzidas a seguir, na medida do possível:
Suponha que um homem esteja cultivando aquele tipo de devoção a Deus que Hanumân representa. Quanto mais intensa se torna essa atitude, mais a postura e o comportamento desse aspirante, e até mesmo sua configuração física, serão moldados nessa forma. É dessa maneira que ocorre a transmutação das espécies. Adotando qualquer dessas atitudes emocionais, o adorador vai sendo gradualmente moldado na própria forma de seu ideal. O estágio último de qualquer desses sentimentos é chamado Bhava Samadhi. Já o aspirante no caminho do Jnana, prosseguindo no processo de Neti, Neti, "não isto, não isto", como "não sou o corpo, nem a mente, nem o intelecto", e assim por diante, atinge o Nirvikalpa Samadhi quando se estabelece na consciência absoluta. É preciso esforçar-se através de muitos nascimentos para alcançar a perfeição, ou o estágio último, com relação a uma única dessas atitudes devocionais. Mas Shri Ramakrishna, o rei do reino do sentimento espiritual, aperfeiçoou-se em nada menos que dezoito formas diferentes de devoção! Ele também costumava dizer que seu corpo não teria resistido se ele não tivesse se sustentado nessa brincadeira do sentimento espiritual.
O discípulo perguntou naquele dia: "Senhor, que tipo de alimento o senhor costumava tomar no Ocidente?"
Swamiji: O mesmo que tomam lá. Somos Sannyasins, e nada pode nos tirar a casta!
Sobre o assunto de como ele trabalharia no futuro neste país, Swamiji disse naquele dia que, fundando dois centros, um em Madras e outro em Calcutá, ele formaria um novo tipo de Sannyasins para o bem de todos os homens em todas as suas fases. Disse ainda que, por um método destrutivo, nenhum progresso, nem para a sociedade nem para o país, poderia ser alcançado. Em todas as eras e tempos, o progresso foi realizado pelo processo construtivo, isto é, dando um novo molde a velhos métodos e costumes. Todo pregador religioso na Índia, ao longo das eras passadas, trabalhou nessa linha. Somente a religião de Bhagavan Buda foi destrutiva. Por isso essa religião foi extirpada da Índia.
O discípulo se lembra de que, falando assim, ele observou: "Se Brahman se manifesta em um homem, milhares de homens avançam, encontrando seu caminho à luz dele. Somente os conhecedores de Brahman são os mestres espirituais da humanidade. Isso é corroborado por todas as escrituras e também pela razão. Foram apenas os brâmanes egoístas que introduziram neste país o sistema de Gurus hereditários, o qual é contrário aos Vedas e contrário aos Shastras. Por isso é que, mesmo por meio de sua prática espiritual, os homens não conseguem hoje aperfeiçoar-se ou realizar Brahman. Para remover toda essa corrupção na religião, o Senhor encarnou na terra, na presente era, na pessoa de Shri Ramakrishna. Os ensinamentos universais que ele ofereceu, se difundidos por todo o mundo, farão bem à humanidade e ao mundo. Há muitos séculos a Índia não produzia um mestre tão grande, tão maravilhoso, de síntese religiosa."
Um irmão discípulo de Swamiji, naquela hora, perguntou-lhe: "Por que você não pregou publicamente Shri Ramakrishna como um Avatâra no Ocidente?"
Swamiji: Eles fazem grande alarde e estardalhaço em torno de sua ciência e filosofia. Por isso, a menos que você primeiro despedace a vaidade intelectual deles por meio do raciocínio, do argumento científico e da filosofia, você não consegue construir nada lá. Àqueles que, percebendo-se sem rumo apesar de todo o seu raciocínio intelectual, se aproximassem de mim em verdadeiro espírito de busca da verdade, somente a esses eu falaria de Shri Ramakrishna. Se, em vez disso, eu tivesse falado de imediato da doutrina da encarnação, eles poderiam ter dito: "Ah, você não está dizendo nada de novo — ora, temos o nosso Senhor Jesus para tudo isso!"
Depois de passar assim umas três ou quatro deliciosas horas, o discípulo voltou naquele dia para Calcutá junto com os demais visitantes.
English
III
( Translated from Bengali )
( From the Diary of a Disciple )
(The disciple is Sharatchandra Chakravarty, who published his records in a Bengali book, Swami-Shishya-Samvâda, in two parts. The present series of "Conversations and Dialogues" is a revised translation from this book. Five dialogues of this series have already appeared in the Complete Works,Volume 5)
[Place: Cossipore, at the garden of the late Gopal Lal Seal. Year: 1897.]
After his first return from the West, Swamiji resided for a few days at the garden of the late Gopal Lal Seal at Cossipore. Some well-known Pundits living at Barabazar, Calcutta, came to the garden one day with a view to holding a disputation with him. The disciple was present there on the occasion.
All the Pundits who came there could speak in Sanskrit fluently. They came and greeting Swamiji, who sat surrounded by a circle of visitors, began their conversation in Sanskrit. Swamiji also responded to them in melodious Sanskrit. The disciple cannot remember now the subject on which the Pundits argued with him that day. But this much he remembers that the Pundits, almost all in one strident voice, were rapping out to Swamiji in Sanskrit subtle questions of philosophy, and he, in a dignified serious mood, was giving out to them calmly his own well argued conclusions about those questions.
In the discussion with the Pundits Swamiji represented the side of the Siddhânta or conclusions to be established, while the Pundits represented that of the Purvapaksha or objections to be raised. The disciple remembers that, while arguing, Swamiji wrongly used in one place the word Asti instead of Svasti, which made the Pundits laugh out. At this, Swamiji at once submitted: "पण्डितानां दासोऽहं क्षन्तव्यमेतत् स्खलनम्—I am but a servant of the Pundits, please excuse this mistake." The Pundits also were charmed at this humility of Swamiji. After a long dispute, the Pundits at last admitted that the conclusions of the Siddhanta side were adequate, and preparing to depart, they made their greetings to Swamiji.
After the Pundits had left, the disciple learnt from Swamiji that these Pundits who took the side of the Purvapaksha were well versed in the Purva-Mimâmsâ Shâstras, Swamiji advocated the philosophy of the Uttara-Mimâmsâ or Vedanta and proved to them the superiority of the path of knowledge, and they were obliged to accept his conclusions.
About the way the Pundits laughed at Swamiji, picking up one grammatical mistake, he said that this error of his was due to the fact of his not having spoken in Sanskrit for many years together. He did not blame the Pundits a bit for all that. But he pointed out in this connection that in the West it would imply a great incivility on the part of an opponent to point out any such slip in language, deviating from the real issue of dispute. A civilised society in such cases would accept the idea, taking no notice of the language. "But in your country, all the fighting is going on over the husk, nobody searches for the kernel within." So saying, Swamiji began to talk with the disciple in Sanskrit. The disciple also gave answers in broken Sanskrit. Yet Swamiji praised him for the sake of encouragement. From that day, at the request of Swamiji, the disciple used to speak with him in Sanskrit off and on.
In reply to the question, what is civilisation, Swamiji said that day: "The more advanced a society or nation is in spirituality, the more is that society or nation civilised. No nation can be said to have become civilised only because it has succeeded in increasing the comforts of material life by bringing into use lots of machinery and things of that sort. The present-day civilization of the West is multiplying day by day only the wants and distresses of men. On the other hand, the ancient Indian civilisation by showing people the way to spiritual advancement, doubtless succeeded, if not in removing once for all, at least in lessening, in a great measure, the material needs of men. In the present age, it is to bring into coalition both these civilisations that Bhagavan Shri Ramakrishna was born. In this age, as on the one hand people have to be intensely practical, so on the other hand they have to acquire deep spiritual knowledge." Swamiji made us clearly understand that day that from such interaction of the Indian civilization with that of the West would dawn on the world a new era. In the course of dilating upon this, he happened to remark in one place, "Well, another thing. People there in the West think that the more a man is religious, the more demure he must be in his outward bearing—no word about anything else from his lips! As the priests in the West would on the one hand be struck with wonder at my liberal religious discourses, they would be as much puzzled on the other hand when they found me, after such discourses, talking frivolities with my friends. Sometimes they would speak out to my face: 'Swami, you are a priest, you should not be joking and laughing in this way like ordinary men. Such levity does not look well in you.' To which I would reply, 'We are children of bliss, why should we look morose and sombre?' But I doubt if they could rightly catch the drift of my words."
That day Swamiji spoke many things about Bhâva Samâdhi and Nirvikalpa Samadhi as well. These are produced below as far as possible:
Suppose a man is cultivating that type of devotion to God which Hanumân represents. The more intense the attitude becomes, the more will the pose and demeanour of that aspirant, nay even his physical configuration, be cast in that would. It is in this way that transmutation of species takes place. Taking up any such emotional attitude, the worshipper becomes gradually shaped into the very form of his ideal. The ultimate stage of any such sentiment is called Bhava Samadhi. While the aspirant in the path of Jnana, pursuing the process of Neti, Neti, "not this, not this", such as "I am not the body, nor the mind, nor the intellect", and so on, attains to the Nirvikalpa Samadhi when he is established in absolute consciousness. It requires striving through many births to reach perfection or the ultimate stage with regard to a single one of these devotional attitudes. But Shri Ramakrishna, the king of the realm of spiritual sentiment, perfected himself in no less than eighteen different forms of devotion! He also used to say that his body would not have endured, had he not held himself on to this play of spiritual sentiment.
The disciple asked that day, "Sir, what sort of food did you use to take in the West?"
Swamiji: The same as they take there. We are Sannyasins and nothing can take away our caste!
On the subject of how he would work in future in this country, Swamiji said that day that starting two centres, one in Madras and another in Calcutta, he would rear up a new type of Sannyasins for the good of all men in all its phases. He further said that by a destructive method no progress either for the society or for the country could be achieved. In all ages and times progress has been effected by the constructive process, that is, by giving a new mould to old methods and customs. Every religious preacher in India, during the past ages, worked in that line. Only the religion of Bhagavan Buddha was destructive. Hence that religion has been extirpated from India.
The disciple remembers that while thus speaking on, he remarked, "If the Brahman is manifested in one man, thousands of men advance, finding their way out in that light. Only the knowers of Brahman are the spiritual teachers of mankind. This is corroborated by all scriptures and by reason too. It is only the selfish Brahmins who have introduced into this country the system of hereditary Gurus, which is against the Vedas and against the Shastras. Hence it is that even through their spiritual practice men do not now succeed in perfecting themselves or in realising Brahman. To remove all this corruption in religion, the Lord has incarnated Himself on earth in the present age in the person of Shri Ramakrishna. The universal teachings that he offered, if spread all over the world, will do good to humanity and the world. Not for many a century past has India produced so great, so wonderful, a teacher of religious synthesis."
A brother-disciple of Swamiji at that time asked him, "Why did you not publicly preach Shri Ramakrishna as an Avatâra in the West?"
Swamiji: They make much flourish and fuss over their science and philosophy. Hence, unless you first knock to pieces their intellectual conceit through reasoning, scientific argument, and philosophy, you cannot build anything there. Those who finding themselves off their moorings through their utmost intellectual reasoning would approach me in a real spirit of truth-seeking, to them alone, I would speak of Shri Ramakrishna. If, otherwise, I had forthwith spoken of the doctrine of incarnation, they might have said, "Oh, you do not say anything new—why, we have our Lord Jesus for all that!"
After thus spending some three or four delightful hours, the disciple came back to Calcutta that day along with the other visitors.
Texto do Wikisource, em domínio público. Publicação original da Advaita Ashrama.